4ª EDIÇÃO DO PROGRAMA DE RESIDÊNCIA ARTÍSTICA 1ª parada do programa Nina Medeiros de nacionalidade Portuguesa.

No despontar de oitocentos, a Europa vive momentos de pujança e de avidez, não parcas vezes associada a alguma arrogância, ou não fosse tal continente o berço da Revolução Industrial e colonizador de fartas e promissoras sociedades e economias submetidas à vassalagem, seja pela força bélica, pela persuasão religiosa, seja, em suma pelo desejo de poder e querer fazer crescer um envelhecido continente feito de nações nunca satisfeitas. De África ao Oriente, às Américas, tudo então estava à mercê do bem dito Velho Continente.
Embora já muito reduzido face aos gloriosos e quase esquecidos anos dos Descobrimentos, Portugal mantinha então ainda um papel de respeito. Entre África, Índia ou China e Timor, em suma, em todo o planeta, mantinha bem viva a herança do valor do ser luso e da língua portuguesa. Nesse espaço português num mundo cada vez mais individualizado e independente, restava e sobressaia a “pérola da Coroa”: o Brasil. Imenso país de imensas gentes, riqueza e futuro, e que não obstante uma separação soberana de Portugal tão “suave” quanto possível, ambos se mantiveram (e mantêm), com sinceridade, a condição de países – irmãos. Acreditemos pois que em terras de Vera Cruz, os portugueses foram mais bons que mais maus paras os naturais de tão grandiosa civilização.
Da portentosa e já falada Europa, constava e consta um punhado de nove ilhas, chamadas de Açores, pedaços de terra habitável descobertos por portugueses e por tal, a tal país pertencentes. Descobertas no século XV e habitadas quase à força por famílias de menores honrarias, rapidamente nelas se formaram sociedades, limitadas, é certo, mas de valores sem igual, moldados pelas adversidades advindas de um espaço fatalmente limitado por um infindável oceano tão desconhecido como temível. Adversidades que se transformaram em crenças e ambição, ambição de ultrapassar os mares, ambição de conhecer mais, ambição em conseguir uma vida mais plena e frutuosa que aquela subjugada às marés.
Temerários, destemidos ou simplesmente loucos, fartos por “ver passar navios”, por condição, obrigação, desejo ou, no limite, por desespero ao perceber que pouco haveria a melhorar numa repetida e condicionada labuta diária pela sobrevivência, um largo punhado de açorianos, de famílias açorianas, fazem-se ao mar, ao desconhecido, a acreditar chegar ao Brasil. Dizem relatos que foram 52 as famílias que, deixando para trás a tão confortável mas tão penumbre condição de ilhéu, se fizeram a um Atlântico infindável, ora azul, ora sem qualquer cor que não a da tormenta, por vezes enegrecido pelo íntimo sentimento de arrependimento por se abandonar um porto seguro, mesmo se pobre. Para os aventurosos, desesperados ou loucos que partiram para o desconhecido, em comum estiveram dias e semanas de arrojo, de coragem e, indisfarçavelmente, de um temor silencioso. Poucos sabiam ao que iam, mas foram.
Mentiu quem então disse que não pensava no regresso à ilha, pedaço já esquecido, assim como os abandonados íntimos e confortáveis sons, cheiros, e, tão intrínsecos daquele que nasceu e que por condição se fez ilhéu. Mas falsou também aquele que acostou a Vitória não só gritou o nome do porto de abrigo, como logo se embriagou com os novos cheiros, as novas cores e por toda aquela gente tão diferente como calorosa que ali vivia uma vida de amizade e esperança.
A poucos passos do abandono do barco que havia sido lar por infindáveis dias e sobressaltadas noites, chega as gentes dos Açores a Viana. Ali se instalaram, ali foram acolhidos e ali fácil se diluíram, com seus hábitos e costumes, numa comunidade secular que passados 200 anos não tem sequer conhecimento da palavra “colonização”. Ali tão só se diz “nós, de Viana”.
  Rui Leite Melo
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