O programa “Mas, que arte cabe numa cidade?” consolida-se como uma referência internacional na modalidade de residência artística e intervenção urbana. Foi escolhido, em um conjunto de 10 (dez), para representar este continente no fórum internacional dos melhores projetos mundiais de arte pública de Xangai, a ser realizado em maio de 2012.

RENASCENTE a memória da água

 Inicio esse texto com uma lembrança de meu filho Henrique no ano de 2002, aos doze anos. Depois de uma caminhada que fazíamos diariamente pelo bairro, fomos matar a sede, e, nesse dia em especial, antes de virar o copo com o precioso líquido, ele disse em voz alta as seguintes palavras: ‘Esta água, que já foi rio, geleira, nuvem, mar e xixi de muitos bichos, agora vai para dentro de mim’. Fiquei com essa imagem como um presente, algo que, mesmo de forma ingênua, afirmava uma relação que estamos sempre esquecendo, que as diversas matérias desse planeta possuem seus ciclos, seus percursos sobre a terra, e se renovam sempre como matéria simbólica quando atentamos para o fato de que, sobre elas, o tempo age construindo, às vezes de forma irrecuperável, sua história. A memória da água, esse talvez seja o tema, a lógica de tudo o que estamos vendo à  nossa volta, as plantas que Piatan Lube propôs como ligadura entre o humano e este elemento vital como determinação de um lugar. A partir destes implantes, ao considerarmos quatros fontes, então quatro lugares, prefiro afirmar que estes se fazem compor num mesmo lugar, a fonte onde floresce a origem dessa ideia.

Tão fluido quanto água é o pensamento, que é capaz de estruturar arquiteturas dentro de uma racionalidade previsível e, ao mesmo tempo, não se manter sempre no mesmo leito, assim como um rio vai encontrando os obstáculos com os quais redesenha sempre suas margens.

Vamos recordar a guerrilha que foi o início desse projeto de residência, que tinha tão certo como meta a interferência na paisagem de Viana. Assim como um rio, as águas/pensamento foram alterando seu curso, encontrando outras vazantes. Na sala de vídeos, podemos flagrar estes instantes. Ali o processo da obra torna-se a obra em si, leito alterado, olhar deslocado da paisagem da sua forma convencional de horizonte para uma busca da intimidade de um olhar oblíquo sobre a superfície da água brotando da terra, num fluxo tão singelo, mas potente o suficiente para alterar de forma irreversível o entorno. Nessa matéria flui nossa experiência no inconsciente, recolhemos com cuidado na palma da mão uma porção dessas memórias quando encontramos com os proprietários destas terras na lida diária com esse elemento; reconfiguramos sua dimensão simbólica, agora no trato da terra na extensão desses veios, na forma de uma artéria que sustenta cada sitiante, sua fixação no lugar. Estas relações renascentes buscam dar à memória o frescor das fontes. O ciclo prossegue, e as águas encontram seus continentes dentro e fora das famílias ali reunidas; então, é o afeto que se mostra produzindo sentidos, nomina seu lugar. As plantas ainda imberbes são fixadas ao solo na esperança de que venham a fazer parte desses guardiões num futuro, protetores daquela que os alimenta numa troca favorável que envolve a memória dentro deste gesto eu te alimento, você me alimenta, numa troca incessante de fluidos.

A obra não trata do replantio destas áreas, mas do que nesta vivência transcende a função destas futuras árvores; o plantio real dá-se na troca entre os seres envolvidos na tarefa de juntos, mentalmente, construírem esta nova hidrografia sentimental, na relação com o espaço agora constituído em lugar construído no ciclo do habitar.                        Júlio Tigre 2012

 

 

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