Ah! Você vai para Viana? Exposição “URU-KU as disciplinas esquecida” de Josely Carvalho.

Fotos Tom boechat

Ah! Você vai para Viana? Não é Viena? Pensei que fosse viajar pela Áustria…

Assim me perguntavam quando contava que tinha sido convidada para uma residência/exposição em Viana.

Cidade esquecida? Não, somente fragmentada.

Que arte cabe numa cidade?

Que cheiros trazem a memória de uma cidade?

                                               Município não planejado                 rasgado pela BR-262

Procuro os cheiros

                 encontro na noite              caminhões que passam em alta velocidade

                                                              um galo que canta e me desperta

                cedo de manhã    o  apito de um trem turístico          fantasma que não vejo

                                                               cheiro de café da Tia Maria

                o coleiro passeia todos os dias com seu dono que não repete o trajeto para que o seu passarinho não se canse da mesma paisagem e dos mesmos cheiros… naquele dia, iam juntos caminhando no meio do trilho do trem, em direção ao Casarão.

                cheiro de umidade, resquício de uma chuva que inundou o município deixando memórias exploradas na primeira residência do projeto

                                                               cheiro de teatro

Seis dias de residência física                                          três meses de residência virtual   

                Tal como arqueólogo, escavo camadas poeirentas de vivências

                                                              cheiro de poeira vindo do sol

                Como etnólogo, procuro com o olfato desvendar memórias esquecidas entre os moradores de Viana

                               Um mapa olfativo das comunidades deve ser traçado

                               Uma geografia dos cheiros, descrita

                Uma disciplina esquecida, resgatada

Hoje se sabe que o feto sente cheiro e que ao nascer reconhece o cheiro materno e vice-versa.

O cheiro é essencial nas relações sociais e amorosas. 

As memórias que incluem lembrança de odores têm tendência a serem mais intensas e emocionalmente mais fortes.

                               O olfato, sentido esquecido

Esquecida na mata, depois de uma ponte, atrás do coqueiral, ao redor de uma igreja pertencente a um quilombo (antiga), uma comunidade me  recebe com sorrisos, sotecos, congos,  historias bordadas e guardadas nos retalhos das suas experiências.                         

                               Araçatiba.

Encontro o conhecimento das ervas medicinais, hoje, quase perdidas, e as arquivo no Livro dos Cheiros,  objeto exposto junto a 18 fotografias como projeto do Jardim Suspenso das Ervas Benignas, que será construído durante o período da exposição

Livro dos cheiros, documentação do comportamento das ervas espremidas entre as suas páginas desde novembro.

Volto sorrindo no abraço comunitário recebido.

Marcilio de Noronha também havia sido escolhido para participar do projeto. Jovens adolescentes plenos do presente e do futuro. Como posso pedir que um jovem tenha na sua memória olfativa os cheiros de sua infância?

                                               Cheiro do presente

O cheiro do presente traça um mapa olfativo dos lugares que habitam e transitam.

Sinto receioem conhecê-los. Seriaa linguagem e o olhar do jovem de hoje que eu não vivi?  Falamos de Orkut, Facebook, Twitter, câmera de celular, blogs… cheiro de teatro, cheiro de hospital, cheiro de cajá, de terra molhada, de chuva caindo.

Saí desta primeira reunião revigorada. Tínhamos muito a trocar – a escolha de duas comunidades de uma mesma Viana, aonde a diferença poderia ser apreciada e valorizada – havia sido rica.

Infelizmente não pude seguir de perto todo o processo do mapa olfativo de Marcílio de Noronha, feito pelo coletivo. Mas a rede de profissionais que havia sido anteriormente tecida pela organizadora do projeto, viveu a experiência como meus avatares, com resultados surpreendentes.  Incorporo o vídeo/mapa olfativo no meu Diário de Campo.

Mas onde guardar os cheiros que desvendam as memórias de Viana?

300 vidros de perfumes em tamanhos e formas diversas com tampas em cores diferentes são distribuídos em Viana para que cada participante contribua com sua memória olfativa através de histórias, objetos, cheiros… cada vidro com seu rótulo.  Vidro-de-cheiro é uma instalação coletiva .

Poderia dizer que o processo desta residência se assemelha à construção de um ninho? Ninho acolhedor de vivências passadas, presentes, futuras. Ninho que se pinta, se veste, se disfarça, se transforma.  Ninho de urucum?  Vermelho alaranjado das paredes pintadas do quarto do meu filho recém-nascido.  Aquele mesmo laranja de um auto-retrato em xilogravura que fiz na minha adolescência com a cabeça coberta por flores cor de urucum.   Cor que havia esquecido e que reencontro no cheiro de uma moqueca capixaba.

Urucum                 Urucu                    Uru-ku   em tupi, língua que resgatamos hoje entre as outras disciplinas esquecidas.

                                                                                                              URU-KU as disciplinas esquecidas

                                                                                                              Josely Carvalho, 2011

 Os jovens de Marsílio de Noronha em reunião com a artista, foto abaixo comunidade de Araçatiba

Reuniões com as equipes do projeto Mas, que arte cabe numa cidade?

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