URU-KU as disciplinas esquecidas

 Fotos Tom Boechat   No segundo piso a instalação cujo título dá nome a exposição: URU-KU as disciplinas esquecidas  e  a  videoinstalação  NÃO POSSO CHEIRÁ-LO

À pergunta proposta pela residência, Mas, que arte cabe numa cidade?, a artista Josely Carvalho respondeu com outra pergunta: “que cheiros cabem numa cidade?” Vale lembrar que o olfato é um sentido quase esquecido em um mundo que engole os tempos, transborda imagens e ruídos, torna tudo veloz e descartável e se revela desprovido das sutilezas que somente os aromas conseguem fazer aflorar.

Pois foi justamente esse o desafio a que a artista se impôs. Numa primeira etapa, durante uma semana, Josely percorreu a cidade de Viana, ouviu histórias da comunidade quilombola de Araçatiba e conversou com os jovens de Marcílio de Noronha. Com as mulheres de Araçatiba, compartilhou histórias, saboreou um soteco, testemunhou a tradição do trabalho artesanal e experimentou o cheiro das ervas aromáticas. Dali, ela colheu galhinhos de ervas e os guardou dentro de um livro que ficou no casarão para a próxima etapa da residência, suas folhas secas cuidadosamente guardadas em meio às páginas.

Até que, num belo dia, o livro brotou. Um galho de boldo, sem mais, nem por onde, resolveu perseguir a luz e renasceu, bem ali. Assim, inadvertidamente, tornou-se o símbolo de uma cidade meio esquecida, fragmentada nas memórias, dividida em geografias esquecidas, rasgadas pela BR 262. Apontou soberano, para além das disciplinas que pareciam empalidecidas e ressecadas.

Pois elas brotaram e tomaram corpo na cor vibrante do urucum. Ou seria do uru-ku, como foi escrito inicialmente na língua tupi-guarani. Esse pó retirado da semente, que tinge tudo de um alaranjado quente, tornou-se uma das grandes metáforas da visualidade capixaba, no olhar e no olfato da artista.

Há muito tempo, a artista, que se divide entre Nova York e o Rio de Janeiro, trabalha uma poética que evoca animais simbólicos: a tartaruga tracajá, que traz seu abrigo nas próprias costas e viaja, representando os percursos traçados pela própria artista; o peixe, aludindo ao mar e às profundezas; e os pássaros, seres tão livres quanto frágeis.

Josely fez do ninho de pássaros um belo retrato sobre o desejo de amor e abrigo, e, ao mesmo tempo, da fragilidade da vida e da inevitabilidade da morte. Uma imagem marcante foi a de um filhote de pássaro morto, caído de seu ninho, encontrado defronte a seu ateliê em Nova York.

Em Viana, o ninho se desconstruiu. Seus galhos, tingidos de urucum, saíram do lugar. O ninho se abriu, se misturou no espaço marcado pela grande tela de vídeo, pronto para configurar novos desenhos e possibilidades de combinação.

Ao trocar informações e idéias com os jovens urbanos de Marcílio, para quem as memórias dos cheiros não falam de passado, mas de um presente pleno de projetos e inovações, surgiu o vídeo “Diário de Campo”. Ali, toda uma riqueza de personagens e experiências se desdobra numa viagem pelos detalhes e delicadezas deflagradas pelos cheiros. São esses diários, esses pequenos inventários que estão contidos nas garrafas, preenchidas pelos habitantes da cidade. As garrafas, testemunhos da memória olfativa de cada um, alimentam o espaço da galeria com a potência da subjetividade. Dão vida a um arquivo morto encontrado perto dali. Eis um pequeno milagre operando novamente.   “Katia Canton” 

 No primeiro piso a projetados os vídeos produzidos no “Diário de Campo” e duas instalações de arte/olfativa intituladas “Livro dos Cheiros” e “Vidro-de-Cheiro”. Fotos Tom Boechat

 

 

Os vidros de cheiros, testemunham as memórias olfativas dos moradores de Viana, alimentam o espaço da Galeria de Arte Casarão.

 Instalação coletiva na qual pretende-se guardar os cheiros que desvendam as memória de Viana: 300 frascos em tamanhos e formas diversas, com tampas coloridas. Estes frascos foram distribuídos no município para que cada um pudesse contribuir com sua memória olfativa, depositando história, objetos e cheiros em cada vidro.

Fotos Waldson Menezes

Cheiro de pai

cheiro de alecrim

Cheiro de filha

cheiro de sítio

cheiro de Sunghi poreini 

 

Cheiro de chiclete ping pong de morangocheiro de dinheirocheiro de amor

 

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